Dialogando


Velhas posias

Publico aqui algumas antigas poesias, para que não se percam no papel empoeirado:

SONHOS

Não sou do hoje,
Fui feito para a eternidade.
Busco horizontes distantes,
Da cor do infinito.

Tenho desejos de distância,
Todas elas a serem percorridas.
Avanço para mundos altaneiros,
Nem por isso mais bonitos.

Meu rosto é marcado,
Em tintas rubras de lágrimas.
Há vôos que pássaros não alcançam,
Esses que por vezes gostaria de ser.

Risos e alegria são alimentos,
Dos quais desnutrido me encontro.
Há no meu peito esperança,
De amor e sonhos, os quais não mais julgava ter.

Vivo, pois, de esperanças tardias,
Que bem poderiam estar há muito comigo.
Esperava o que de há muito deveria possuir,
E perdi-o sem nem ao menos tê-lo tido.

Minha vida era uma fenda aberta,
Inundada por dolorosa angústia.
Que eu possa sonhar com outros horizontes,
Agora que me encontro acrisolado em tábuas sacrificiais.

Adriano Soares da Costa (21.09.99)

OLHANDO A IMENSIDÃO DO MAR

E o que me diz o mar assim,
De um azul tão imenso que atormenta?
E o que me diz se nele sucumbo,
Ante sua profundidade imponente?

Minha vida não tema dimensão do mar,
Nem os horizontes que nele busco em mim.
Embora meus olhos reflitam suas cores,
Se perdem eles diante de sua eloqüência.

Queria, ao menos, ser um rio sem curvas sinuosas,
Cuja caminhada não possuísse grandes desafios.
Quem sabe sem perder-me aprender
A sonhar leitos mais intensos e pretensiosos.

Julgo-me às vezes cansado, como marolas sem forças.
Vejo-me por vezes indo e vindo,
Em um ritmo monocórdio e sem vida,
Como o mar cansado de seu próprio peso.

E se tantas vezes me desbasto e angustio,
É porque com o mar não aprendi a ser impetuoso,
Abrindo os caminhos por onde passar,
Quebrando os rochedos que me detêm.

DOR DE QUEM AMA

Que distância inespugnável
A que faz da amada uma estranha,
De cujos olhos não se encontra ternura,
Mas uma frieza que de si não se acanha.

Impensável encontrar o reflexo da indiferença,
Em olhos que antes externavam apenas amor.
Se é ruim perder-se na ausência da alma de quem se ama,
O mais grave é ser causa de sua dor.

Ah, como sói doer o fato de amar,
Quando sofre quem se ama de verdade.
A dor condoída é infinitamente presente,
Pois é sentir que se sente por vontade.

E o coração de quem ama dolorido,
Faz-se dor pela dor da pessoa amada.
É um viver em si mesmo a dor alheia,
Por si mesma muitas vezes multiplicada.

Mas a dor de quem ama ri de si mesma,
Por que não ama quem dor não sente.
Se amar sem dor viesse de ser possível,
Seria pouco menos que um sentimento indolente.

Adriano Soares da Costa 18.06.2000.

VOCÊ EM MIM (TÍTULO PROVISÓRIO)

Há em ti algo que me arrasta,
Que torna nenhuma a minha vontade.
Estando perto de ti sinto dor;
Longe, uma profunda saudade.

Em teus olhos encontro ternura;
Nele habita uma mulher em chamas.
Sinto-me por eles indefectivelmente tragado;
Já não sou mais eu, apenas os gestos de quem ama.

Que faço, se sou êmulo do vento que te toca,
E de tuas roupas íntimas nutro rendida inveja;
Se dos lençóis que te cobrem tenho raiva ingente,
E campeia em mim ciúme que não se peja?

Nunca, por um momento sequer, amei,
Embora o desejasse incontadas vezes.
Todavia, dês que meus lábios misturaram-se aos teus,
Estava já eu prostrado, subtraído em tuas redes.

Eu te amo como bicho, como um anjo,
Com desejo santo e inconfessável.

Quero tua alma, tua carne, teus pensamentos,
Com uma gula incontida e inamolgável.

Por isso é imperativo dizer com toda a força
O quanto desenganadamente eu te amo.
E o sinto de modo sagrado e puro,
Porém nem sempre assim: também profano.

Adriano Soares da Costa - Gruta, 03 de maio de 2000



Categoria: Pessoal
Escrito por Adriano Soares às 18h49
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Gigantes

Eu fui batizado na igrejinha de Barro Vermelho, um povoado do município de Junqueiro. Lá, no cemitério próximo, está enterrado o meu avô paterno. Morte e nascimento. Os dois mistérios que, noves fora nada, são um só mistério: Deus. Por que nascemos? Morremos por quê? Respostas foram dadas em toda a história da humanidade. A mais fantástica, que liga as pontas da questão, é a resposta dada por Cristo na cruz. Ali, morte e vida se inter-cruzam, se misturam: morte e ressurreição. Vida que derrota a morte e faz da imagem da derrota o símbolo da vitória: a cruz!

Fui batizado naquela igrejinha, para onde me volto agora: longe de tudo, no "fim do mundo", quando as perspectivas humanas eram de horizonte tão limitado. No ciclo da vida dos meus pais tanta coisa mudou. E nós mudamos tanto desde então. Éramos pobres, embora vivêssemos com dignidade, fruto do trabalho deles. Por concurso público, depois de muito estudo e nenhum apadrinhamento, ingressaram no serviço público para ter renda certa, embora apoucada, para nos prover. Com toda a labuta, com renúncias, educaram os filhos, os quatro, no melhor colégio do Estado.

Como não olhar para trás e ser grato? Meu Deus, vida e morte, trabalho e preguiça, seriedade e mediocridade... Aprendi tanto com os meus pais, que me espanto. Simples eles foram, mas gigantes!



Categoria: Pessoal
Escrito por Adriano Soares às 23h49
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Democracia e direito de defesa

O aparelho repressor do Estado nunca teve tantas armas ao seu dispor. A tecnologia permite a invasão de privacidade como nunca se viu na história da humanidade: escutas telefônicas ou ambientais, filmagens em lugares públicos, violação de correspondência eletrônica... Com todos esses instrumentos para a investigação, há ainda os que defendam limitações na relação cliente e advogado, justamente possibilitando a quebra legal do dever de sigilo ou mesmo a invasão de escritórios jurídicos para obtenção de provas contrárias ao investigado.

Um Estado de Direito não se constrói sobre o espezinhamento do direito de defesa. Nesta prática, chega-se em verdade à barbárie, à falta de limites do aparelho repressor. Em artigo muito oportuno e bem escrito (leia aqui), o presidente da OAB/SP, LUIZ FLÁVIO BORGES D'URSO, enfrenta com seriedade a questão. Não se pode admitir, a bem das investigações, que se impossibilite o próprio exercício do direito de defesa, uma vez que na prática  o advogado poderia ser compelido a delatar o seu cliente, em quebra do dever de sigilo, ou teria o escritório jurídico seria, em caso de possibilidade da sua invasão, utilizado como armadilha para o cliente.

Todos - advogados e cidadãos - devem estar alertas para excessos do poder repressor, para que não vivamos desenganadamente em um big brother consumado, descrito no romance "1984".



Categoria: Jurídico
Escrito por Adriano Soares às 21h00
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Férias

Férias... Era para ser um período de descanso, mas cá estou eu com os livros jurídicos à mão, estudando para o artigo que estou escrevendo. Semana que vem saio, vou para a praia, aí sim, descansar. Uma semana com a família e a natureza, sem preocupação nenhuma, sem nada que prenda a minha atenção, a não ser as minhas duas mulheres.

Uma confissão: quando era criança e também adolescente, o papai tinha a necessidade de nos preparar para a vida, dando-nos consciência de que só vence honestamente quem estuda ou se dedica com seriedade à realização dos seus sonhos. Por isso, não admitia, mesmo nas férias, que durmíssemos até mais tarde. Isso o aborrecia. Quando chegava do trabalho para almoçar e nos encontrava dormindo era um sermão duro: "Estão bom de pegar no cabo de uma enxada para saber o que é a vida!" Por isso mesmo, todo dia nos fazia - aos meus irmãos ou a mim - comprar pão da padaria, ou ir ao banco pagar contas, ou lavar o carro, para saber o que é a vida, que ela tem exigências... De tal sorte que, quando dormíamos um pouco mais, nas férias, pulávamos da cama ao ouvir o ronco do motor do carro do papai chegando, arrumávamos tudo e íamos para a sala, para que ele nos visse acordados ao entrar. Só não termos o sermão já seria um ganho!

Tantas foram as oportunidades de levar um carão por dormir tarde e acordar mais tarde ainda nas férias, tantas foram as exigências de nunca relaxar durante a minha formação, que até hoje tenho, aos 38 anos, profunda dificuldade de simplesmente descansar, ficar leve, sem cobranças interiores profundas. É como se o meu pai interior estivesse sempre me deixando alerta, me chamando à responsabilidade. Há uma canga do meu self, do meu super-ego, do que seja lá o que for, que me oprime se relaxo, se não me cobro, se não me preparo para a competição da vida. Por isso, nas férias eu estudo, devoro livros jurídicos, filosóficos, sociológicos... Leio para estar sempre pronto para a minha vida profissional, para não me deixar acomodar, para estar sempre atualizado, para ser sempre responsável...

Você deve estar pensando: esse cara é um angustiado. Sou. Minha angústia é controlada pela minha capacidade de sublimar essas exigências, de um lado, e pela livre disposição do espírito para estudar, que é algo que me dá prazer. O que sou profissionalmente devo as horas de estudo e dedicação, devo a essa capacidade de concentração e a intuição natural de ler para além do texto, interligando sentidos e vendo conexões teóricas onde poucos vêem. Mas, de fato, não relaxco inteiramente nas férias. Relaxo em momentos.

Paula aprendeu isso e sabe, quando viajamos, tirar esses pesos de mim, fazendo-me relaxar. Por isso, vou para a praia passar uma semana longe de tudo, sem pensar em nada de relevante, curtindo cada momento desse, tão raro para mim.

Voltando ao meu pai, acho que ele acertou na nossa formação. Não há educação perfeita. Mas aquela que nos faz gente, pessoas responsáveis, e aquel'outra que nos deixa pequenos para a vida, nanicos morais. Por isso, estando sempre em estado de cobrança, me inpulsiono para a frente, provoco-me sempre a melhorar, a ultrapassar meus limites...

Bom, mas agora é hora de seguir os conselhos de Marta Suplicy: o negócio é relaxar... Bom janeiro para todos!



Escrito por Adriano Soares às 12h45
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