O ser humano é capaz de grandes vôos, realmente. Mas é capaz de cada coisa impressionante, também. Figuraças impagáveis não se dão conta do ridículo, como no vídeo abaixo. O programa Astros do SBT, que segue a formatação de Ídolos (franquia perdida para a Rede Record), resolveu abrir espaço para o brega e o inusitado. Nos testes, aparecem cada figuras inacreditáveis... Nenhuma superou, no entanto, Sueko Tanizaki. Eu não sei aonde vou....
Quem quiser ver outras perólas, basta dar uma olhada no vídeo abaixo. O riso é garantido:
Estamos chegando à festa de São João. Boas lembranças me trazem. A Turma do Funil da nossa adolescência na Avenida Rotary. Tomávamos todas e começamos a passar dos interesses exclusivos pelo jogo de bola para dividi-los com as meninas da rua. Os ensaios de quadrilha eram o melhor momento daqueles anos. Diferentemente de hoje - puxa, como as coisas mudaram e como já falo como velho! -, não era fácil chegar nas meninas para dançar. Mas também, quando a dança começava, perna-com-perna de bermudas, aí.... Êta forrozinho bãaaaaaaoooo....
Quem curtiu de modo sadio, como nós todos curtimos, a adolescência, sem drogas ou maluquices, soube viver tudo com intensidade. Certo, tinha um lolozinho - de leve - aqui e ali, mas nada demais. Tinha um porre de vez em quando... Mas no geral, estávamos sempre inteiros, brincando, namorando e curtindo a vida, sem fazer burrices.
Ricardo (Cadinho), Luciano Lobão, Júlio Caçola, Lenílson, Alexandre Toinha, Gustavo Cocô, Neto, Gustavo Xoxo, Testa e outros tantos amigos de uma época boa demais.
Agora, a música que marcou a nossa época e que marcou as nossas festas juninas era uma só: confidência! Ah, quem quiser ver vídeos de músicas de Jorge de Altinho, eu postei algumas de suas músicas no UOL Mais. Basta acessar usando o link na barra de links, à direita da tela.
Os servidores públicos de Alagoas passarão a ter um programa voltado à sua valorização, com investimento na sua formação pessoal e profissional. Sobre o assunto, concedi ao Bom Dia Alagoas a seguinte entrevista, em que falei também sobre o programa de redução de despesas:
Alagoas perderá, no dia 1º, a atuação de um grande homem público: aposentar-se-á Antônio Sapucai. Um magistrado íntegro, de envergadura moral, cuja trajetória está sendo encerrada de um modo absolutamente conforme à sua carreira funcional: com dignidade e consciência do dever cumprido.
O Des. Sapucaia - conto agora este fato - desaconselhou-me a ingressar na magistratura. Dizia ele que a minha vocação é para a advocacia. Conhece-mo-nos quando eu tinha 24 anos e exercia o cargo de Procurador Geral do Município de Maceió. Um magistrado notável. Todavia, amargurado por ser preterido constantemente em suas promoções, justamente pela sua atuação independente. Quantas vezes não pensou em desistir de tudo?
Quando em 1998 optei por deixar a magistratura, ele me apoiou com palavras de estímulo e de perplexidade. Achava que eu não devia ter entrado, mas agora que era juiz, deixar o cargo seria por demais arriscado. Foi. E só eu sei o quanto.
Sapucaia é um homem simples. Um gigante, contudo. Deu lições de coragem e vigor moral para a nossa história. Fará falta. Tanta, que impressiona o deserto de homens com a sua dimensão na vida pública, em qualquer área. Deixa de ser desembargador; agora, podemos apenas chamá-lo (como já podíamos antes) de Mestre.
Teatro Gustavo Leite (para secretários de Estado, não passa de um auditório), no Centro Cultural e de Exposições de Maceió, também conhecido como centro de convenções. Jaraguá. Manhã desta terça-feira. A platéia toda é de servidores estaduais. Eles atenderam a uma convocação da Secretaria de Gestão Pública.
O servidor que levanta o braço aí no meio responde a uma pergunta do secretário Adriano Soares, que certamente achava que não seria contestado. As idéias de "melhoria" das condições de trabalho do funcionalismo público foram, num ponto específico, vaiadas enquanto eram apresentadas por um integrante da secretaria.
Quando a vaia explodiu, o secretário Soares, que estava sentado, foi correndo ao microfone e, visivelmente irritado e em tom ameaçador, esbravejou: "Quem é, quem é que está gritando?" Segundo gente do próprio governo, o secretário imaginava que ninguém se manifestaria, com medo da possível reação da Gestão Pública. Enganou-se.
Da platéia, falando clara e tranqüilamente, o servidor não apenas assumiu o protesto, como desconcertou Adriano, este respeitável advogado que, nas horas vagas, complementa sua renda com o bom salário de secretário de Estado.
Eis a maéria de Célio Gomes, da Gazetaweb. Corresponde a verdade? Nem de longe. A verdade está na página da Gestão Publica e nas matérias do governo. Um grande evento, com mais de 1 mil servidores presentes. Sim, mais de 1 mil! Espontaneamente. Um vaiou. Vaiou, como vaiam aquela minoria que comparece a eventos públicos com uma finalidade ou missão premeditada. A mando de quem? A foto postada é interessante: um único servidor, de mão levantada... com seus dois minutos de fama. Depois, ele levou uma sonora vaia dos presentes. E o evento transcorreu com a sua normalidade.
A raiva desse pessoal é de dar pena....
Para os que sempre são do contra, para os que sempre desejam mal às pessoas, para os que sempre preferem apostar no pior, para os invejosos de ocasião, para os que sofrem com o trabalho e o sucesso alheio, para os que vivem para pensar mal dos outros ou para urdir maldades, uma canção doce, interpretada pela cantora Eliana. Afinal, com esse hit podemos revolucionar o mundo, sem guardar rancor ou raiva, sem afetar o fígado, sem sofrer. Ouçam com carinho, como se escutassem um mantra libertador dos antigos e sábios filósofos da Índia. Afinal, com bom humor, vencemos todos os males...
Passarei o fim de semana fora. Salvador. Vou proferir uma palestra lá. Deixo para a Paula, que não vai poder ir - a Maria Eduarda reclama a sua presença, mas vai assim mesmo comigo, no coração - um vídeo especial para a gente, que lembra o nosso começo.
Há situações incontroláveis. Entre a vontade e a razão dá-se a compulsão. Nem a vontade controla nem a razão domestica: a compunsão é simplesmente avassaladora, chegando as raias do absurdo. O vídeo abaixo não é piada, estando na internet em estado bruto, sem a explicação que neste existe. O apresentador de tv que se deu mal diante do imponderável. Imperdível!
Eu venho evitando publicar aqui posts muito pessoais. Mas não resisti ao vídeo de janeiro, da Paula "sofrendo" em deixar a Maria Eduarda querendo aprender a nadar sozinha. Aliás, hoje a Maria Eduarda está na fase Charlie e Lola, desenho conhecido da Discovery Kids. Ela quer fazer tudo "sozinha", repetindo sempre isso. Uma figurinha... Não dá para o pai não babar!
Falei em pai babão. Mas quem viveu a experiência profunda do nascimento de uma criança - seu sangue - não pode deixar de ser. Para a Maria Eduarda (e para a mãe) não poderia haver melhor música do que a do Kenny Rogers para o seu filho que nascera: You are so beautiful.
Que coisa maluca é o futebol. Ontem, três momentos incríveis em dois jogos fantásticos. Na decisão da Champions da UEFA, decisão por pênaltis. O melhor da Europa e, provavelmente, o melhor do mundo vai bater o seu. Cristiano Ronaldo, do Manchester United, faz pose, dá uma paradinha e... o goleiro defende. Parecia o fim do título e a colossal derrocada do menino de ouro dos portugueses. Segue a disputa e vem o último pênalti: Terry, o capital do Chelsea vai bater e se consagrar, consumando a conquista do título. Se fizer o gol, toda a jornada será premiada com a vitória na mais importante competição de clubes para os europeus. E Terry se dirigiu para a bola confiante e, debaixo daquela chuva torrencial, corre para o chute definitivo. O pé de apoio desliza no gramado molhado, ele se delequilibra e o chute sai no meio de um escorregão. A bola vai para fora. Terry cai e, perplexo, morde o próprio joelho, ali, sozinho no meio da gente, dos milhões de olhos de todo o mundo... O campeonato se esvai, logo em seguida, quando Anelka perde o penâlti já na disputa um-por-um. Manchester United campeão, Cristiano Ronaldo cai no chão em choro compulsivo, vendo que a vilania da derrota pela perda do seu pênalti se esfumou: o menino de ouro aprendeu a lição!
À noite, Fluminense e São Paulo. Os paulistas dominam o jogo, exceto no início, quando tomaram um gol que podiam tomar. Tocam a bola, são superiores durante todo o transcorrer do segundo tempo. O Fluminense marece cansado, satisfeito com a perspectiva da disputa nos pênaltis. Mas havia Adriano, o Imperador. Gol de cabeça, mostrando que a sua ressurreição se consumara. Comemoração. Vaga assegurada na semi-final. Saída de bola. Hein!? Gol do Fluminense. Ainda assim, paulistas em vantagem, porque a derrota por um gol de diferença, tendo feito o seu, carimbava a passagem. Último minuto. O São Paulo perde um jogador expulso no finzinho. Escanteio e bola alçada à área. Washington. Gol. No fio na navalha, na bacia das almas, no instante definitivo para o fim: a vitória inesperada, a consagração iluminada, o imponderável acontece.
Fluminense classificado; Manchester United campeão. O futebol gera paixão justamente por isso: porque é o esporte do solavanco do coração!
Blog do Ricardo Mota: Gestão, competência e enrolada
20/05/2008
"Carro de polícia parado é incompetência de gestão", diz Adriano Soares
O secretário de Gestão Pública, Adriano Soares, quer participar da reunião do GGI, onde vem sendo criticado, para defender a nova política de compras centralizada do Governo do Estado. Ele é enfático ao afirmar que a responsável pelos carros parados, principalmente na Polícia Militar, " é a incompetência da gestão." Ontem, em reunião com a cúpula da Segurança Pública, Soares rechaçou as afirmações de que a AGESA seria a culpada pela demora nos processos licitatórios para aquisição de peças, insumos e alimentação para a PM.
"O que nós estamos estabelecendo é um mínimo de ordem no caos que ainda existe. É imenso, ainda, o desperdício abusivo nas compras públicas", afirmou. Em entendimento com o secretário Paulo Rubim, ficou estabelecido o prazo para que todos os veículos a serviço das polícias estejam "chipados" - com um chip, medindo o consumo de combustível: 30 de junho. Depois disso, quem não seguir a determinação ficará sem abastecimento nos vinte e nove postos que atendem aos veículos oficiais do Estado.
A ida do secretário Adriano Soares ao GGI tem como objetivo descartar a proposição que vem sendo defendida no colegiado de voltar à descentralização das compas na área da Segurança Pública. "Não aceito que se culpe à AGESA pela demora nas licitações. Hoje, nós podemos dar celeridade ao processo através do pregão eletrônico e com economia para o Estado. A descentralização é um retrocesso e premia a incompetência. Mais do que isso, é apostar na volta do crime organizado nas compras públicas". A cúpula da Defesa Social apóia a nova política, garantiu o secretário.
Ele cita o caso da Saúde como exemplo de resultado concreto. Só na compra de um medicamento, diz ele, "nós economizamos R$ 2 milhões, em relação ao preço que era praticado. "No caso da farmácia básica, a economia chegou a 59%. "O que falta, em regra, é o planejamento. Quando ele se dá, você pode ganhar, por exemplo, nas compras em maior escala- o preço cai, os cofres públicos economizam". A previsão do secretário de Gestão Pública é de que até o final do ano a redução dos gastos do Estado chegue a R$ 78 milhões.
Isso significa uma redução, também, do consumo? Ele nega, e aponta o caso do combustível, que já teve um diminuição de R$ 300 mil/mês este ano. "Nós vamos consumir mais em volume e pagar menos no final das contas", assegurou Soares.
O texto acima, postado no Blog do Ricardo Mota, corresponde rigorosamente a entrevista que dei. Não pode o gestor público esconder a sua incompetência no biombo da Agesa, como se ela fosse a responsável pelos seus insucessos. Pelo contrário. A nova Agesa está ajudando o Governo a se organizar e economizar, comprando mais e melhor. Agora, tem de haver planejamento e organização dos gestores, que não podem mais comprar de qualquer jeito. Mudou a forma de se administrar em Alagoas, embora alguns ainda desejem reproduzir antigos vícios.
Abaixo, segue uma amostra do que vem sendo feito pela Agesa, sob a direção de Francisco Beltrão e sua equipe. A Gestão Pública não abre mão dos avanços que estamos promovendo. Os números falam por si. Vejam o quadro: http://docs.google.com/Presentation?id=d84qrm2_77c3shmhgv.
Às vezes imaginamos que o sucesso cai do céu, como o apostador da mega-sena, cuja único esforço é gastar em alguma loteca uns trocados e esperar que o acaso lhe renda milhões. Até que isso ocorra - se algum dia ocorrer -, ficamos esperando o tempo passar e optamos por criticar a todos, porque afinal somos melhores do que "tudo isso que está aí". É a lógica do perdedor, daquilo que os americanos chamam de loser para designar a pessoa sem sucesso, descartável ou secundária. Uma definição de loser está na esculhambada Desciclopédia (clique aqui), e enciclopédia livre e sem controle da internet.
O sucesso instatâneo é buscado com avidez nos tempos de hoje. Ninguém quer perder tempo estudando, trabalhando, especializando-se. Não. Isso é coisa ultrapassada. A maioria quer fazer sucesso no jeitinho, como os travecos que enganaram o jogador Ronaldo (e não me venham dizer que Ronaldo sabia que as meninas andavam, cada uma, com uma coca-cola litro guardada na calça ou saia, sei lá...). Chamam a imprensa para o espetáculo começar, para aparecerem em dois minutos de fama, ainda que seja má-fama. Vale tudo.
Quanto custa o sucesso? Talento e persistência! Talento sozinho não faz muito, porque pode ser desperdiçado. Persistência sozinha faz alguma coisa, mas já tem um limite natural. A soma é o sucesso: persistência para fazer bem; talento para ultrapassar o bom e alcançar a excelência do ótimo. Mesmo com as limitações de dinheiro, mesmo com as barreiras criadas, a soma dos dois é imbatível.
Conselho: trabalhem duro, estudem, dediquem-se. Haverá oportunidades. Se tiver talento, você fará as oportunidades!
Perguntaram-me o porquê do texto acima. Não, não tem nada a ver com nada em concreto. É que li a história do Kimmi Raikkonen e constantei que o talento vence todas as adversidades. Querem ler? Aqui.
É comum entre nós denominar a tudo o que parece atrasado e negativo de "medieval". Esse rótulo é sempre aposto em situações, condutas ou opiniões que sejam política ou moralmente contrários ao senso comum pós-moderno, ou seja, o paradigma de que tudo é permitido, de que não há um porto seguro para parametrizar a vida humana em sociedade. Tudo é relativo, dirão os progressistas de hoje; a única coisa absoluta é a negativa de qualquer moral que ponha limites ao sem-sentido dos múltiplos e avassaladores sentidos.
A idade média não foi a época das trevas, como vendeu o iluminismo e comprou a preço vil os intelectuais e políticos contrários à Igreja. Foi uma época em que a civilização ocidental apenas não caiu na completa barbárie porque a Igreja não permitiu, abrindo os caminhos - naturalmente com todas as marcas daquele tempo - para que a ciência pudesse prosperar. Toda e qualquer ciência? Não, é certo que não. Os dogmas da fé se sobrepunham a qualquer ciência e, por vezes, eram lidos equivocadamente, gerando malefícios e encolhos. Mas será que a ciência sem as peias da fé não estão hoje gerando mais malefícios à humanidade, de forma infinitamente mais deletéria? Não estou aqui a defender o obscurantismo. Sobre a relação entre fé e razão, João Paulo II mostrou a posição da Igreja: não há anteposição, mas inspiração dessa a partir daquela. A ciência sem a fé é cega tecnologia; a fé sem a ciência, fundamentalismo arrogante.
Sobre a Idade Média, ninguém melhor do que Jacques Le Goff para desvendar-lhe os mistérios e as virtudes. O Estadão deste domingo publicou um bom texto sobre o tema. Reproduzo abaixo:
Uma iluminada Idade Média
Dois livros de Jacques Le Goff mostram uma continuidade entre o período medieval e o Renascimento
Elias Thomé Saliba
É quase impossível um bom conhecimento da história medieval sem passar por alguns livros de Jacques Le Goff. Suas obras se tornaram essenciais para se esboçar um quadro geral da época e obrigatórias no que se refere à cultura e ao imaginário medievais. Para quem ainda não leu nada de Le Goff, dois lançamentos recentes constituem sínteses bastante acessíveis - realizadas pelo próprio historiador - dos seus livros mais notáveis: Uma Longa Idade Média, um conjunto de artigos e entrevistas publicados em revistas especializadas entre os anos de 1980 e 2004, e A Idade Média Explicada aos Meus Filhos, que fornece aos leitores, sob forma de um diálogo didático, valiosíssimas aulas sobre os itens mais importantes da história medieval.
E toda aula deve começar pelo que se considera óbvio: aqueles grandes recortes de tempo que acompanham as lentas mutações da história. Ao contrário do que ainda se propala em muitos manuais, Le Goff insiste numa "longa" Idade Média, que não acaba no fim do século 15, mas avança para o século 16: não há ruptura no Renascimento, já que o perfil desse movimento repete muito da ebulição cultural do mundo carolíngio no século 12, assim como do renascimento das cidades medievais no século 13. O historiador acredita que este extenso universo medieval não é nem tão sombrio como queriam os humanistas ou filósofos das Luzes, nem tão dourado ou lendário como imaginavam os românticos ou os católicos do século 19. Como todas as épocas da História, a medieval foi feita de sombras e de luzes, embora Le Goff reconheça: suas obras revelam mais a parte iluminada e criativa da cultura medieval.
Apesar de um dos livros, pelo seu próprio título, buscar o público infantil, é quase garantido que será de grande interesse para todos, já que não é sempre que um historiador como Le Goff - hoje com seus 84 anos - se mostre disposto a responder de forma tão direta e concisa. Na Idade Média, as pessoas viviam o tempo todo em função da religião? Supondo-se as diferenças entre os imperadores e o rei, quais as qualidades ideais de um bom chefe de Estado no ambiente político medieval? Por que a biografia de São Francisco de Assis é importante para se conhecer o imaginário medieval? Qual o estatuto do humor e do riso numa cultura fortemente marcada pela rigor da culpa e do pecado? Para todas essas questões - às quais os historiadores só admitem responder através de longas explanações, quando não em livros inteiros - Le Goff tem o cuidado de não esconder conflitantes pontos de vista sobre o passado, elaborando respostas concisas - mas atenuadas - colhidas na informalidade de uma conversa e que ocupam, não raro, algumas poucas linhas. Nas conversas, ele também revela elementos importantes de sua própria formação: além da leitura dos romances de Walter Scott, fonte de inspiração juvenil pela história, ele deixa escapar que o retrato mais fiel no cinema sobre a Idade Média foi Lancelote do Lago (1974), de Robert Bresson.
A cristandade medieval - que desapareceu no século 15 - foi a era da culpa e do recalque, mas também ensinou um uso esclarecido e humanista da religião, que demarcou os tempos e os dias dos homens e mulheres, transformando a crença na eternidade num dos poucos universais genuínos da cultura ocidental. A biografia de São Francisco pode ser vista como um sismógrafo das tensões e das angústias humanas na construção deste universal inerente à cristandade. As tensões vinham, por exemplo, da determinação eclesiástica que condenava o riso e a festa. No riso, o homem revelava sua inferioridade em relação a Deus (os evangelhos afirmam que Jesus nunca riu) e sua superioridade em relação a outros seres vivos (os animais não riem). São Francisco transforma este riso reprimido em ideal de espiritualidade e em comportamento típico da piedade franciscana, praticada pelos alegres "jograis de Deus".
Reis e imperadores também não poderiam nunca se contentar com o ideal daqueles que concentram todos os poderes, mas sobretudo, no paradigma daqueles homens imbuídos da graça divina, concentrando em si tanto as virtudes quanto os pecados. Em sociedades que embrulhavam o medo e a esperança num mesmo pacote, quebras éticas dos governantes eram passíveis de um julgamento cósmico e todos os súditos, sem exceção, viam-se como moralmente culpados. Das sangrentas cruzadas a inúmeros episódios da vida de São Luís, Le Goff resume com extrema simplicidade exemplos já analisados em seus livros. E demonstra mais uma vez que, ainda quando não haja a mais remota possibilidade do passado servir de lição, ainda assim resta sempre aquela última alternativa de ele servir como exemplo.
Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de As Utopias Românticas